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Setembro e o reencontro com a memória

Setembro e o reencontro com a memória

Artigo de Opinião de JOSÉ ALBERTO BAPTISTA

Edição Impressa do Jornal Correio de Lagos 347 · SETEMBRO 2019 

“As lembranças vêm ao meu encontro” (Edgar Morin)

Neste mês de Setembro é lançado um livro estranho, pessoal, memorialista, escrito por Edgar Morin. É um belo presente para todos os que, durante anos, foram leitores atentos deste ensaísta, sociólogo e filósofo, enfim, de um pensador indisciplinado que serviu de guia a gerações e a políticas. Mas, o que é mais estanho neste livro é a maneira como este homem quase centenário passeia em Setembro as suas lembranças, avisando-nos que este mês é, e será sempre, o mês em que se misturam algumas das mais suaves e ternas memórias da nossa vida. Vamos reler um pouco o que ele nos diz sobre o universo em que foi crescendo, desde o fim da mais mortífera guerra que atormentou o mundo, através de um entrevista em que apresenta o conteúdo do seu livro. Há algumas ideias a reter dessa entrevista. A primeira, buscada na antiguidade clássica, e que ele define como o quadro de toda a convivência política e social. “Heraclito, seis séculos antes da nossa era, dizia: concórdia e discórdia são pai e mãe de todas as coisas… Um dos defeitos da nossa maneira de pensar, seguindo a lógica aristotélica, é que temos de resolver as contradições”. Esta necessidade de eliminar a contradição é um desafio aos que defendem o consenso em democracia.  Consenso, não é o pensar do autor. Por isso, a segunda ideia que nos deixa é a de que: “A democracia não vive se não através de antagonismos fecundos, de oposições de ideias. Hoje, substituímos estes antagonismos por oposições de pessoas”. Para ele, é esta última situação que reduz a força da vitalidade política; deixou de haver contraditório nas ideias e passou a haver antagonismo de pessoas.

Realidade tão presente no mundo político – partidário, que faz com que nos desliguemos do universo dos projectos e enfraqueçamos a vontade de trabalhar num plano mais vasto, seja a nível mundial, seja a nível local. E eis-nos chegados à terceira ideia, a de que a política cedeu o seu lugar à técnica e aos seus representantes. Esta realidade pode - se descortinar, não só a nível dos governos centrais, como municipais. Porque, para Morin, “Os políticos estão sempre com falta de tempo e confiam em conhecedores técnicos, que na sua maioria são incapazes de um pensamento que faça a ligação entre problemas particulares e globais”. Sabemos que a política é feita em sobrecarga, ficando pouco tempo para o pensamento e para o planeamento. Mas, isso não pode ser desculpa para que a área administrativa e técnica cada vez ganhem mais espaço na gestão política.  Esta cedência é mais relevante nas decisões locais, quanto o político não cuida, ou cuida menos, de mergulhar no âmago das realidades administrativas, urbanísticas e culturais. E nelas ganhar tempo político.

Quando olhamos, por exemplo, para uma malha urbana em que o perfil da cidade parece ter crescido por retalho arquitectónico, em que a realidade económica se impôs à ambiental, a sensação que nos fica é que houve mais consenso técnico e económico que discórdia política. Por fim, na quarta ideia, fruto de uma longa persistência na vida, reconhecemos a lucidez do autor: “Nós hoje vivemos, com a mundialização, a união de duas barbáries. Uma, vem do fundo das idades, fundada sobre a dominação, o desprezo, a morte, o massacre, a servidão. A outra, gelada e fria, é a do cálculo e do lucro”. Esta última é a mais visível no nosso quotidiano, emagrecendo a vitalidade da vida cidadã e autorizando a célula neoliberal a controlar o nosso ambiente. É contra qualquer destas barbáries que Morin nos confessa: “aprendi  que podemos resistir”.

Ler memórias de homens que viveram de modo intenso a sua época, por vezes heroica, por vezes demoníaca, é uma saudável e grata maneira de reconhecer nos “ grandes e calmos dias de Setembro” (E. de Andrade) o que nos une à vida, nos desliga da barbárie e nos obriga a resistir. Os grandes e calmos dias de Setembro em que eramos jovens e em que procurávamos caminhos para um futuro em que as lembranças pudessem, mais tarde, também vir ao nosso encontro. 

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