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(Z1) 2020 - CM de Vila do Bispo - Um concelho a descobrir

Reportagem com pescadores na Praia da Salema, unidos na contestação contra a nova aquacultura para mexilhão

Reportagem com pescadores na Praia da Salema, unidos na contestação contra a nova aquacultura para mexilhão

“Já gastei muito dinheiro só em medicação com os nervos que apanhei”

“Se nada for feito para defender a pesca artesanal, teremos de tomar medidas, como fechar as barras para eles não conseguirem fazer nada. Estamos unidos para ir para a frente com isso”, afiança o pescador João Modesto. “Nunca senti os pescadores tão mobilizados como agora”, reconhece Fábio Mateus, autarca e armador. Mar cheio de “porcaria” com “plástico devido às armações das aquaculturas”, denuncia quem anda na faina. 

 

Segunda-feira, dia 10 de Fevereiro de 2020, tarde de sol na Praia da Salema. Junto às suas embarcações, vários pescadores tratam das artes e deixam tudo a postos para quando chegar a altura de voltar ao mar. A instalação de uma aquacultura destinada ao crescimento/engorda de mexilhão em mar aberto, numa área total de 282 hectares, projetada mesmo ali em frente, domina as conversas com as vozes exaltadas.

 

“Recebi como uma bomba” a informação sobre a nova aquacultura

João Modesto, de 46 anos, dono da embarcação ‘Salema à Vista’, é um dos oito armadores da pesca artesanal que restam nesta localidade do concelho de Vila do Bispo. Ao todo, são 16 homens que ali ainda se dedicam directamente à actividade. “Recebi como uma bomba” a informação sobre a nova aquacultura. “Ando no mar há 32 anos, ainda me faltam alguns anos para me reformar. Se fizerem aquilo, a gente encosta. Não temos sítio para pescar e nem sei o que hei-de fazer à vida. Por causa desta situação, já gastei muito dinheiro só em medicação com os nervos que apanhei”, conta, revoltado, ao «Correio de Lagos», o pescador.

Depois de uma breve pausa, aponta um dos braços em direcção ao mar e diz: “Se eles fossem para as oito milhas a partir da terra, não fazia mal a ninguém. Só que querem meter aquilo, os viveiros, mais perto de terra porque é um sítio mais baixo e gasta menos material, menos cabos. E se forem para mais longe, terão de gastar o dobro do material e mais dinheiro”.

 

“Fechar as barras”

Se a contestação apresentada pela Junta de Freguesia de Budens em resposta ao edital da Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, sobre o projecto aquícola, bem como pela Câmara Municipal de Vila do Bispo e por associações de armadores, pescadores e mariscadores, junto do secretário de Estado das Pescas, José Apolinário, não surtir efeito e a aquacultura for mesmo uma realidade, os profissionais da pesca da Salema irão juntar-se aos protestos dos seus colegas de Sagres, que já ameaçam bloquear as barras, de forma a impedir o acesso das embarcações, tanto naquela zona, como em Lagos e Portimão. “Se nada for feito para defender a pesca artesanal, teremos de tomar medidas, como fechar as barras para eles não conseguirem fazer nada. Estamos unidos para ir para a frente com isso”, garante João Modesto.

 

“Vejo cada vez mais porcaria na água devido às armações das aquaculturas e qualquer dia um barco pode ter um acidente na barra em Sagres”

O sentimento de indignação daquele pescador estende-se a outros problemas, para os quais chama a atenção: “Dizem que querem preservar os oceanos por causa do ambiente, tirar o plástico do mar, mas vejo cada vez mais porcaria na água devido a estas armações das aquaculturas do mexilhão que já aqui existem. Os pescadores trazem o lixo todo para terra, estamos a limpar o fundo dos mares e eles estão a poluir cada vez com mais plástico. É uma coisa louca! Se os nossos governantes fossem umas pessoas com cabecinha, diziam logo «não!», porque a maior poluição que pode haver ao pé dos tanques é esta porcaria das aquaculturas.” E, reforçando as críticas, deixa um aviso: “Vão atirando a porcaria à entrada da barra em Sagres, que, por isso, está a ficar cada vez mais baixa e qualquer dia um barco de pesca pode voltar-se e ter um acidente. Isto é uma vergonha!”

 

“Se não conseguir pescar aqui, terei de ir para outros mares, que não são bons como este”

A poucos metros do areal, Fábio Mateus, presidente da Junta de Budens - que foi apanhado de surpresa perante o edital da Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, datado de 08/01/2020 -  pescador, “há dez anos”, e armador, “há dois”, proprietário da embarcação ‘Flor de Burgau’, afirma à nossa reportagem: “Recebi o edital com constrangimento, porque nunca, nunca esperei uma situação destas. Isto é demais. Vejam a revolta de todos os pescadores aqui presentes. Toda a pesca artesanal vai ser afectada. Na minha actividade, costumo pescar cavala, sardinha, carapau, besugos, nesta zona, tudo. No futuro, não sei.”

Se o projecto aquícola for concretizado, “teremos de procurar outro mar, vai ser muito complicado. Aqui é a nossa salvaguarda. Caso contrário, é o desemprego para muitos. Se não conseguir pescar aqui, terei de ir para outros mares, mas não são bons como este, que é o melhor desta zona do Algarve”, reconhece Fábio Mateus.

 

“Nunca senti os pescadores tão mobilizados como agora”

O pescador e autarca vê um ambiente de união entre os profissionais da pesca artesanal no concelho de Vila do Bispo para travar a nova aquacultura. “Sinto os pescadores muito mobilizados. Nunca os senti os pescadores tão mobilizados como agora. É uma classe unida porque todos vamos perder com isto. E é por unanimidade estarmos fortes neste sentido de travar” esta nova aquacultura.

Contudo, se o empresário reformular o projeto e instalar o espaço aquícola “mais longe, noutra zona em que não afete a pesca artesanal, tudo bem para nós”, ressalva Fábio Mateus. “Não somos contra a aquacultura, toda é importante. Agora, tem é de haver sítios para a pesca artesanal e para a aquacultura, que não confrontem uns com os outros.” E apontando em direção ao mar, explica: “daqui, da areia, até ao local onde a querem instalar não chega ao equivalente a um quilómetro. E esta zona é boa para correntes, é boa para nutrientes, porque é onde abundam os cardumes de peixe. Todo o pescado está ali. Tem muita alimentação e é muito importante.”

 

“São vidas que estão em jogo, o sustento de famílias”

Na Junta de Freguesia de Budens, já “contestámos o edital, aguardamos que a Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, e o Secretário de Estado das Pescas nos respondam e consoante a resposta, assim iremos tomar as medidas necessárias”, refere, com convicção, o autarca e pescador, salientando que “são vidas que estão em jogo, o sustento de famílias e nunca esperámos por isto.”

 Fábio Mateus admite interpor na justiça uma providência cautelar, mas prefere, neste momento, não assumir tal cenário. “Vamos onde for preciso para que isto não seja imposto”, garante, sem adiantar seja o que for. E bloquear barras marítimas para impedir a navegação, como já ameaçam os pescadores? “Onde for preciso”, limita-se a responder, cauteloso, Fábio Mateus.

   A poucos metros de distância, um antigo pescador, de 80 anos, dá um conselho aos mais novos: “é preciso que estejam unidos para protestarem contra os viveiros de aquacultura que querem instalar nesta zona e vai destruir tudo. Os pescadores não conseguirão largar as redes como deve ser.”

 

“Agora é a malta unir-se e ir para a luta”

Noutra zona perto do areal da praia da Salema, João Ventura Modesto, de 74 anos, junta-se à contestação e afirma: “Isto está mal, querem ocupar a toda a zona. E a gente vai pescar para onde? E como é que ganhamos dinheiro para comer e sustentar as nossas famílias? Agora é a malta unir-se e ir para a luta.”

 

“Os pequenos estão unidos, o pior são os grandes”

Junto às embarcações, Luís Miguel, de 46 anos, que trabalha com o pai na pesca, desabafa ao «Correio de Lagos: “Ando aqui desde os 14 anos. E agora, o que havemos de fazer? Vamos ficar sem mar para largar redes e pescar. Tenho dois filhos para criar e estou em risco de ir para o desemprego.” Já em relação à união entre os pescadores para contestar a nova aquacultura, Luís Miguel considera que “os pequenos estão unidos, o pior é os grandes, que, como não podem vir da milha para a terra, não ligam a isto. Não querem saber.”

 

“Dêem uma indemnização aos pescadores, para aí 150 mil euros a cada um”

Antigo futebolista do Benfica (chegando a ter Eusébio como treinador), do Portimonense (com Manuel Oliveira) e Olhanense, entre outros clubes, o pescador Luís Filipe trabalha “com tudo, com redes, alcatruzes, barro, artes antigas, na apanha do polvo, da azevia, besugos, salmonetes, pescada. Se o projecto da aquacultura avançar, vai eliminar a nossa actividade”. E recorda: “Já estamos muito condicionados, desde há anos, com as leis que nos impõem restrições, pois não se pode trabalhar com redes do barco de uma milha para terra, não se pode trabalhar com alcatruzes de meia milha para a terra, nem de um quarto de milha quando apanhamos sargos, robalos, linguados. Na pesca do polvo, não se pode trabalhar com alcatruzes da meia milha para terra. Vejam bem isto! Só se pode trabalhar para fora. Mas já há dois ou três viveiros de aquacultura na zona de Sagres, e agora se ainda instalarem outro, aqui na Salema, com essas dimensões (282 hectares), rebenta tudo e a malta já não sabe para onde ir trabalhar.” E entre risos à mistura, lança um recado ao Governo: “Dêem uma indemnização aos pescadores, para aí 150 mil euros a cada um.”

No meio da expectativa com que os pescadores aguardam a resposta à contestação do edital, Luís Filipe mostra-se confiante: “Estou convencido de que o senhor ministro do Mar e as pessoas encarregues deste processo, vão ter em atenção também a nossa situação. É que vêm barcos de todo o lado, de Lagos, Portimão, e com a nova aquacultura, ninguém poderá trabalhar.”

 

Saúde pública em risco com micro plásticos na guelra do salmonete e de outros peixes

A concluir, aproveita para deixar um aviso: “No ano passado, estiveram aqui três raparigas da Universidade do Algarve a explicar os problemas devido ao plástico. Já houve uma conversa que existiam micro plásticos na guelra do salmonete e de outros peixes por causa daqueles viveiros de aquacultura na zona de Sagres, o que é prejudicial à saúde das pessoas que os consomem. O que acho caricato é andarem por aí nas televisões a tirarem os sacos de plásticos, mas, depois, continua-se a usá-los.”

 

Reportagem de Carlos Conceição e José Manuel Oliveira

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